segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

27 de Janeiro de 1945


Raramente uso maquilhagem e de toda a maquilhagem o batom é aquilo que, mesmo nas raras ocasiões em que me maquilho, nunca ponho; embirro com aquilo nos lábios e embirro com os cabelos que, por serem compridos e normalmente estarem soltos, com o vento teimam em esvoaçar, e colar-se-lhes.
Hoje pintei os lábios, e pintei-os para homenagear e não esquecer a data que hoje se assinala, a libertação do campo de concentração de Auschwitz.
E…porquê o batom? Que forma tão estranha de  assinalar uma data!
Pintei os lábios porque me lembrei de uma história que eu não sabia, e o meu filho me deu a conhecer há uns tempos atrás, e que aconteceu em Bergen-Belsen (libertado só a 15 de Abril de 1945).
Para que a história não se repita, há coisas que não devem de ser esquecidas.

“Sou incapaz de uma descrição apropriada do circo de horrores em que meus homens e eu haveríamos de passar o mês seguinte da nossa vida. O lugar é um deserto inóspito, desprotegido como um galinheiro. 
Há cadáveres espalhados por todo lado, alguns em pilhas enormes.  Levei algum tempo para me acostumar a ver homens, mulheres e crianças tombarem ao passar por eles. Sabia-se que 500 deles morreriam por dia antes que alguma coisa que estivesse ao nosso alcance fazer causasse algum impacto. 
Não era fácil ver uma criança morrer sufocada pela difteria quando se sabia que uma traqueostomia e alguns cuidados a teriam salvado. Viam-se mulheres afogadas no próprio vômito porque estavam fracas demais para se virar de lado. Homens comendo vermes agarrados a meio pedaço de pão pelo simples fato de que precisavam comer vermes se quisessem sobreviver. E porque depois de algum tempo, eram incapazes de distinguir uma coisa da outra. (…) 
Pouco depois da chegada da Cruz Vermelha britânica, chegou também um grande carregamento de batom. 
Não era em absoluto o que queríamos, clamávamos por centenas de milhares de outras coisas. 
Não sei quem pediu batom, mas gostaria muito de descobrir quem fez isso. 
Foi um golpe de gênio, de habilidade pura e natural. 
Creio que nada contribuiu mais para aqueles prisioneiros de guerra que o batom. 
A mulheres se deitaram nas camas sem lençóis e sem camisolas, mas com os lábios escarlates. 
Podia-se vê-las perambulando por todo lado sem nada, a não ser um cobertor em cima dos ombros, mas com os lábios bem vermelhos. 
Vi uma mulher morta em cima da mesa de autópsia, cujos dedos ainda agarravam um pedaço de batom. 
Enfim alguém fizera algo para torná-las humanas de novo. 
Eram gente, não mais um simples número tatuado no braço. 
O batom começou a lhes devolver a humanidade, porque, às vezes, a diferença entre o céu e o inferno pode ser um pouco de batom.”

Extraído do livro DEUS E SEXO, de Rob Bell, Editora Vida, 2010

Colaboração de Wilma Santiago

18 comentários:

  1. Que estranha mistura de sentimentos estas leituras. A mim deixam-me com uma incomum incapacidade de tecer comentários.

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    1. Obrigada pelo seu comentário que me ajuda a melhorar, mas não chego a perceber se "a estranha mistura de sentimentos" é uma coisa boa ou má...

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    2. Nem eu. Por um lado o gosto pela escrita que pelo extrato junto, deixa antever que o livro de Rob Bell deverá ser um bom livro. Por outro lado o conteúdo que nos deixa entre o triste pela situação relatada e o feliz por ter sido o princípio do fim. Entende este misto de sentimentos num só post?

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    3. Sim, sim, dito assim percebo bem ao que se refere.
      Obrigada Vítor.

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  2. Sabes, consigo compreender como um simples batom conseguiu trazer de volta, um bocadinho de vida àquelas pessoas.
    É uma história impressionante.

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  3. Li há uns tempos, não sei muito bem onde, que em tempos de crise económica a venda de batons tende a disparar. Porque quando falta quase tudo, uma mulher precisa, mais do que nunca, que não lhe falhe a autoestima e o amor próprio.
    Quanto na Auschwitz, guardo a pior das memórias, quando ainda não sabia que havia vida em mim a crescer e caminhei por aqueles corredores cheios de rostos magros a olharem para mim, corredores que me haveriam de conduzir a uma sala cheia de sapatos de criança. Não consegui falar o resto do dia. Deve ter sido dos momentos mais intensos que alguma vez vivenciei (sendo que neles incluo também o nascimento da minha filha).

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    1. Percebo-te perfeitamente…Auschwitz não conheço, e não sei se alguma vez terei a coragem, mas na Hungria vi muito…e não sou capaz de o digerir...

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    2. Vai no último dia... Eu depois ainda fui três dias para a Cracóvia e parece que nem apreciei.

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  4. Fiquei arrepiada. E passei batom.

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  5. O Baton pode parecer uma frivolidade mas foi uma transfusão de vida.

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  6. Tenho que dizer que chorei ao ler o texto. Talvez porque eu sempre que tento combater a depressão arranjo-me o mais possível. Agora a mais de 1700km do meu lar não saio de casa sem maquilhagem completa, incluindo baton, para ir fazer limpezas, trabalho que mais detesto fazer...

    Consigo perceber o que aquele baton significou.

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    1. E agora quem ficou triste fui eu…
      Um beijo enorme R, do fundo do coração!

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  7. Estive em Auschwitz há muitos anos e foi das coisas que mais me impressionaram até hoje. Não conhecia os factos que relata no seu post, mas de facto, é impressionante como um objeto como um simples batôn, pode restituir algum sentido de humanidade, assim só... Gosto do seu blog, acompanho-o há algum tempo, embora nem sempre comente! Beijinhos e parabéns pelo post!!!

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    1. Muito obrigada Paula, também eu gosto muito de vos ter aqui; só assim, isto dos blogs, faz sentido.

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  8. Já conhecia este testemunho, mas nem por isso deixei de ficar com lágrimas nos olhos. E já fiz chorar alunos meus com este mesmo texto, porque se a História serve para alguma coisa é para não nos deixar esquecer.
    Parabéns pelo post, Sexinho. Absolutamente brilhante...

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    1. Obrigada Maria, é bom que não se não deixe esquecer.

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