quarta-feira, 23 de julho de 2014

Escola Básica, nº 4 do 1º Ciclo - antigo Palácio Sinel de Cordes - Palácio Godinho


Na segunda-feira e a propósito da foto do meu escritório ao ar livre, a mgp falou num "edifício que me parece ter sido uma escola. Tem umas portas lindas, imponentes, mas completamente degradadas. Dá dó ver aquele património assim abandonado."; foi assim que ela o disse.

Pelas imponentes portas, agora lascadas e sem cor, entraram batalhões de crianças, que depois de subir uma grandiosa escada em madeira, entravam nas salas para aprender o bê-à-bá que um dia lhes permitiria ler as grandes obras e escrever os afectos, a geografia de um Portugal aquém e além fronteiras, com os caminhos de ferro, as serras, os rios e tudo, cantar a tabuada e aprender a aritmética de mercearia a que se tirava noves fora nada, e batia sempre certa, fazer trabalhos manuais com folhas de árvore e papel metalizado antecipando o Natal.

Pelas janelas altas via-se passar as estações; primeiro vinha o Outono todo ele folhas doiradas e vento, depois o Inverno chuvoso e frio, a Primavera parecia que nunca mais chegava e com ela o sol, as andorinhas que viviam nos beirais do telhado e se ouviam todo o dia, as flores coloridas e o verde das árvores; o Verão não se sabe como seria visto dali porque eram as férias grandes e não ficava lá ninguém para contar como era.

Ali se aprendia a disciplina e o brio, a camaradagem, a lealdade e o gosto pela verdade (estou convencida que estas cinco caracteristicas/qualidades eram os nomes do meio da Dona Olga), ali se ensaiavam os primeiros namoros e se ouviam as primeiras ameaças "lá fora, comes!"

Ao lanche comiam-se bolachas que tinham inscrito "MM" e bebia-se leite com chocolate e só depois se ia brincar e correr no pátio das traseiras.

Eu sei, porque eu fui uma dessas crianças; por isso me dá tanta tristeza vê-lo para ali…assim…

Campo de Santa Clara, Lisboa
1ª classe

13 comentários:

  1. Fila de baixo, 4ª a contar da direita? :)

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  2. Que giro! Acho que a minha mãe andou nesta escola! :)

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  3. E, num instante, se passou o tempo...

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  4. Como o tempo passa, espero que não se deixe destruir o espaço, parece bem giro!

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  5. MM era de Manutenção Militar, certo!?
    Estamos todos ligados por pequenos detalhes ;-)

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  6. Já me fazia tanta impressão ver aquele edifício maravilhoso para ali…assim…Uma sensação de desperdício que me perturba muito.Mas agora li o seu texto e compreendi que é um edifico com alma, que significa mais que a sua fachada e as belas portas desamparadas. Há tantos assim por essa Lisboa, casas que já foram lares, palácios, palacetes e “casas de boneca”, tudo abandonado, ou derrubado para fazer “caixotes” novos. “Fica mais barato fazer de novo do que recuperar o antigo”, dizem… e eu sei que o dizem muito.

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  7. É realmente lamentável contemplar o abandono e a deterioração de edifícios, que pela sua caracterização e contextualização, mereciam obras de restauro, e bem assim, poderem vir enriquecer, pelo menos o património local...
    Infelizmente, aqui em Coimbra é o que mais se constata, principalmente na baixa, zona histórica patrimonial.
    Gostei do seu texto, da fundamentação...dos pequenos detalhes, que por momentos me induziram a um sorriso demorado, na sequência das boas e "doces" lembranças da minha infância.

    Paula Pedro

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  8. Bom tema, bom texto, boa fundamentação...fez-me sorrir, pois trouxe-me à memória, boas e "doces" lembranças da minha infância.
    Aqui em Coimbra, especialmente na baixa, zona histórica patrimonial, infelizmente o abandono de edifícios que pelas suas características e contextualização mereciam restauro, é uma triste constatação. É o país que temos...

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  9. Bom tema, bom texto, boa argumentação.
    Gostei. :)

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